Maxigoogle
 

ÚLTIMA EDIÇÃO

Jornal Palavra - Última Edição

POSTAL DE REGUENGOS

Praça de Stº António

PREVISÃO DO TEMPO
Agora em Reguengos de Monsaraz, Portugal
 
PORTAL DE REGUENGOS
INÍCIO | ADICIONE AOS FAVORITOS
Ana Paula Amendoeira

O Planeamento da vitivinicultura em Reguengos de Monsaraz no Século XIX: um exemplo de pioneirismo

continuação

A partir da altura em que a sede do concelho se fixa definitivamente na vila de Reguengos, em 1851, o concelho passa a ser dirigido por representantes da burguesia terratenente enriquecida após as transformações verificadas com a Revolução Liberal. Exemplo paradigmático desta situação foi Manuel Mendes Papança, nascido em Reguengos, em 1818, que ocupou o cargo de Presidente da Câmara durante 20 anos, desde 1851 a 1871. Para além da construção das principais infra estruturas e equipamentos da vila, Manuel Papança formou uma comissão de importantes proprietários para proceder à compra de uma grande área de terrenos da Casa de Bragança em Reguengos. O objectivo desta aquisição foi o de proceder à divisão destes terrenos em courelas, distribuídas pela população a preços baixos e com facilidades de pagamento. Com a condição de nelas ser plantada vinha.

Esta intervenção planeada deu origem ao plantio de cerca de 1 milhão de cepas. Em cinco anos desenvolveu-se prodigiosamente a produção vinícola em Reguengos, criando “supremos senhores da terra adquirida por muitos pobres que nunca pensaram vir a ser proprietários rurais”, para citar a imprensa local da altura quando se refere a esta importante iniciativa.

Este novo grupo de proprietários está na base da forte classe média que sempre caracterizou a vila de Reguengos e que a faz distinguir-se muito claramente das outras vilas da região, onde historicamente o fosso entre os assalariados e os grandes proprietários era consideravelmente mais acentuado do que em Reguengos. Até mesmo politicamente e no período mais conturbado a seguir ao 25 de Abril de 1974, o concelho de Reguengos de Monsaraz foi, no distrito de Évora, e mesmo no Baixo Alentejo, aquele que menos se radicalizou politicamente, em muito devido às características da forte classe média aqui existente historicamente. Em Reguengos de Monsaraz, até ao último quartel do século XX, a vinha esteve sempre na mão do pequeno e médio proprietário, com poucas excepções.

Este pioneirismo no planeamento objectivo, clarividente e intencional da vitivinicultura em Reguengos teve continuidade ao longo do século XIX e no século XX.

O Dr. Joaquim Rojão, outro reguenguense nascido em 1840, foi administrador do concelho, de 1870 a 1879, tendo sido também parlamentar. Montou a primeira lavoura a vapor no Alentejo, sendo um homem muito dinâmico e interessado pelos problemas agrícolas.

Ele próprio teve também uma actividade pioneira no que diz respeito à cultura da vinha e à própria produção de vinho em Reguengos.

Quando a filoxera atingiu as vinhas de Reguengos, em 1893, Joaquim Rojão criou, ainda no mesmo ano, a primeira Comissão de Vigilância Anti Filoxera e trabalhou afincadamente, enquanto parlamentar, na elaboração da legislação que permitisse criar os sindicatos agrícolas. Logo que conseguiu o decreto autorizando a constituição de sindicatos agrícolas, em 1894, formou, em 1895, o sindicato Agrícola de Reguengos, com 22 sócios, tendo o mesmo, em 1932, 393 sócios.

Nos primeiros anos do século XX, os vinhos de Reguengos foram consolidando a sua fama no mercado.

Devido à sua inegável qualidade, desenvolveu-se um processo de falsificação e importação de vinho de inferior qualidade para o lotear com o vinho de Reguengos e assim ser vendido para outras regiões do país.

O Sindicato Agrícola esteve um pouco inactivo porque foi abandonado pelos sócios. Alguns produtores começaram a alertar para a situação de fraude e inicia-se uma tentativa de criação de uma cooperativa de produtores para protecção da qualidade do vinho de Reguengos.

A vulgarmente chamada Adega Regional formou-se em 1933, contra a vontade de muitos e a incerteza de outros. Devido ao pouco interesse, por falta de tradição cooperativa e associativa, a Adega Regional durou apenas cerca de 2 anos, sem que conseguisse alterar a situação de falsificação generalizada do vinho de Reguengos.

A polémica desenvolvida a este respeito na imprensa local é, a todos os títulos, notável e pedagógica para erros que ainda hoje se possam repetir.

José Bizarro de Morais, director do jornal Eco de Reguengos e Regente Agrícola de formação, desenvolveu aliás, nos anos 40 do século XX, uma acção pedagógica no jornal que dirigia, com muitos ensinamentos que ainda hoje seriam úteis para a necessidade de preservação da qualidade e da identidade dos nossos vinhos.

Mais tarde, em 1951, é elaborada uma tese de licenciatura em Agronomia sobre a criação de uma adega cooperativa em Reguengos de Monsaraz, com um estudo de viabilidade muito aprofundado. Em 1972 é criada a Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz que hoje aglutina a esmagadora maioria dos produtores de vinho do concelho e não só, tendo várias marcas premiadas internacionalmente, com destaque para o seu topo de gama o GARRAFEIRA DOS SÓCIOS. O produtor José de Sousa Rosado Fernandes que criou um vinho hoje considerado mítico, o TINTO VELHO, iniciou a sua produção também na década de 40 do século XX. As suas vinhas foram adquiridas já no final do século XX pela empresa José Maria da Fonseca, que continuou a produção e a marca JOSÉ DE SOUSA. Em 1972 na Herdade do Esporão foi iniciado o plantio da que viria a ser a maior vinha, em extensão, da Europa, criando a marca ESPORÃO, hoje também uma referência dos vinhos do Alentejo e de Portugal. Já nos últimos anos, outras produções de grande qualidade têm surgido no concelho, como é o caso da marca TAPADA DO BARÃO, da Herdade dos Perdigões, ou o MONTE do LIMPO da herdade com o mesmo nome, só para citar alguns exemplos, entre outros.

O projecto iniciado por Manuel Papança foi de facto visionário, apontou um efectivo caminho para o desenvolvimento da região, para o desenvolvimento a que hoje chamamos durável, expressão que na época não era ainda utilizada, mas conhecido o seu sentido. A especificidade da cultura da vinha e da produção vinícola em Reguengos de Monsaraz é recente, foi objectivamente planeada no século XIX e continua a dar frutos e a ser desenvolvida no século XXI.

Data de publicação:18-08-2008 04:19
Powered by MAXCONTENT
Todos os direitos reservados - MAXIDEIA.COM
© 2007 JORNAL PALAVRA
Reguengos de Monsaraz