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O Planeamento da vitivinicultura em Reguengos de Monsaraz no Século XIX: um exemplo de pioneirismo O concelho de Reguengos de Monsaraz, criado no século XIX, decorre do antigo concelho de Monsaraz, com sede nesta vila desde o século XIII. Em 1838 dá-se a primeira mudança de sede do concelho para Reguengos, mas só em 1851 o concelho fixa a sua sede definitivamente nesta vila, criando o concelho de Reguengos de Monsaraz.
A vila de Reguengos tem, pois, características urbanísticas e populacionais que a diferenciam de outras vilas, sedes de concelhos limítrofes, como é o caso de Redondo, Mourão, Alandroal e Portel. Trata-se efectivamente de uma vila na sua grande parte planeada, construída por uma burguesia terra-tenente saída do liberalismo. Reguengos é, pois, ao contrário das vilas referidas, uma povoação feita por essa burguesia que se fixou massivamente neste período na vila, e se tornou a nova e mais importante proprietária fundiária do concelho. Enquanto que antes do liberalismo os principais proprietários da terra no concelho eram os Conventos, as Ordens Religiosas e as Casas Nobres, como a de Bragança, a seguir ao processo de extinção dos baldios e da venda em hasta pública dos bens das Ordens Religiosas, a terra mudou efectivamente de mãos, tendo sido comprada por esta nova burguesia nascente. Enquanto que nos outros concelhos os novos proprietários se fixaram nas sedes respectivas, no concelho de Monsaraz não aconteceu o mesmo. A sede do concelho, Monsaraz, era politicamente apoiante dos absolutistas, estava num processo acelerado de decadência económica e de perda de importância estratégica. A nova burguesia da terra fixa-se então nas aldeias dos Reguengos, pequeno povoado ligado ao artesanato das lãs que daria origem às conhecidas mantas. O desenvolvimento desta actividade laneira relaciona-se de perto com o facto de esta região estar nas rotas de entrada dos grandes rebanhos transumantes, ligados à grande organização da Mesta Espanhola. A origem da actual vila de Reguengos está ligada às grandes possessões da Casa de Bragança nesta região e já anteriormente à constituição desta grande Casa Ducal, o Rei aqui tinha os seus reguengos, como pode ser verificado no foral afonsino de Monsaraz. Durante as Guerras da Restauração, no século XVII, aqui se fixaram alguns couteiros da Casa de Bragança contribuindo para um desenvolvimento considerável do núcleo urbano inicial. Até aos inícios do século XIX, Reguengos era uma pequena aldeia do concelho de Monsaraz com uma actividade económica em torno da tecelagem, criação de gado, agricultura, principalmente de sequeiro, e algum plantio de vinha pouco expressivo que começa a desenvolver-se mais a partir deste período e principalmente após as transformações sociais e económicas decorrentes da Revolução Liberal. A grande tradição de vinha e de vinho no concelho de Reguengos de Monsaraz não é, como recorrentemente se afirma, milenar. Obviamente que a cultura da vinha o é, como nos atestam os mais antigos textos da antiguidade clássica. No entanto, quando fazemos esta afirmação acerca de Reguengos, isso apenas quer dizer que não se trata de uma região vitivinícola com séculos de existência, uma vez que a vinha não era uma actividade fundamental na economia da região, como hoje acontece. Tradicionalmente, e ao longo do Ancien Régime as terras dividiam-se grosso modo em “herdades de mato” e “herdades de pão”, seguindo terminologia local hoje já caída em desuso. Esta classificação tradicional faz perceber que a vinha não era aqui uma cultura determinante, embora fosse obviamente praticada. Há mesmo referências no Foral Manuelino de Monsaraz, de 1562, a um “reguengos que noutros tempos foi de vinhas” e, mais tarde, já em 1804, foi dada à Câmara de Monsaraz uma carta régia que determina: “Hey por bem que nessa Villa de Monsaraz e seu termo se não possa vender vinho de fora, debaixo das penas de contrabando, enquanto houver vinho bom da produção do mesmo terreno, e se fizer a venda com sujeição à Almotaçaria e Posturas dessa Câmara, e por taxa justa sem lezão dos compradores” O vinho era, pois, uma produção tradicional no concelho mas não de importância económica determinante. É por isso importante referir que o que é hoje uma região vitivinícola consolidada e economicamente fundamental para o concelho tem a sua origem numa forte intervenção dirigida nesse sentido e que nos permite falar do planeamento da vitivinicultura em Reguengos de Monsaraz. continua |