Entrevista - Francisco Chalaça

Data de publicação:
16-02-2010 10:24

O Turismo de Alqueva tem futuro

O Alentejo pretende afirma-se como um destino turístico de excelência. Que passos são necessários para que tal aconteça?

O Alentejo é hoje um território de imensos recursos, sem que isso corresponda a igual volume de produtos turísticos, pelo que a grande tarefa que a todos se nos coloca é a transformação desses recursos em produtos turísticos. Nos últimos anos surgiram no Alentejo, particularmente em Évora algumas unidades de alojamento de excelente qualidade, mas continua ainda a existir um grande deficit de unidades de grande qualidade (5 estrelas) e de elevada capacidade, só unidades com essas características conseguem atrair a realização de grandes eventos, nacionais e internacionais, por um lado e por outro lado públicos dos segmentos de mercado de elevado poder aquisitivo.

 

Num ano de crise do sector, a região do Alentejo destacou-se devido aumento/crescimento da ocupação hoteleira. Na sua opinião a que se deve esta situação de contra ciclo?

O turista que nos procura é ainda hoje, essencialmente, o turista nacional, a crise económica mundial levou a que a procura por destinos internacionais tenha sentido grandes retracções em todos os países, em Portugal, o fenómeno foi idêntico e muitos Portugueses optaram por fazer férias cá dentro, logo, foram as regiões mais procuradas por turistas nacionais, que mais beneficiaram com esta situação. Por outro lado, ainda que eu não possua números que me permitam afirmar com rigor o contributo das campanhas, “Descubra um Portugal maior” levada a cabo pelo Turismo de Portugal e “No Alentejo há mais”, desenvolvida pela Turismo Alentejo, dizia eu que, embora desconhecendo o verdadeiro impacto, estou em crer que ambas as campanhas terão contribuído para os resultados na ocupação hoteleira verificada no Alentejo.

 

Que objectivos pretende a TGLA atingir até ao fim do ano?

Os nossos objectivos, principais, para este ano, são essencialmente 3:

1 - Apoiar as unidades de alojamento, que queiram proceder à sua reconversão por forma a cumprirem os requisitos constantes do DL 39/ 2008 de 7 de Março alterado pelo DL 228/ 2009 de 14 de Setembro, só dessa forma poderão continuar a usar a designação de “alojamento turístico” com todos os benefícios inerentes;

2- Segundo um estudo da “Brantia”, mandado realizar pelo Turismo de Portugal, O Lago Alqueva, enquanto destino turístico, é ainda muito desconhecido por parte dos cidadãos nacionais, particularmente acima do rio Tejo, pelo que as actividades de promoção e divulgação do território irão ser, este ano prioritárias.

3. Um terceiro grande objectivo para este ano é continuar o trabalho iniciado no ano passado de implementação da “Agenda para a Sustentabilidade e Competitividade do Turismo Europeu”, fundamental para que este território possa desenvolver-se de forma sustentada e equilibrada, no respeito pelo seu património ambiental, paisagístico e cultural, no respeito pela organização social tradicional das nossas aldeias e na prosperidade partilhada por todos, independentemente da dimensão das suas unidades de alojamento ou do volume de negócios da sua empresa. Neste contexto assume particular importância o projecto, que pretendemos implementar, de desenvolvimento neste território de uma “Reserva Dark-Sky”, isto é, um espaço privilegiado de fruição do céu estrelado, livre de poluição luminosa e atmosférica, que é hoje procurado por entusiastas de todo o mundo pertencentes a um clube frequentado por gente de grande poder aquisitivo.

 

Que acções pretende desenvolver a curto prazo com vista ao alcance desses objectivos?

Para atingirmos o primeiro objectivo que enunciei iremos contactar com todas as unidades de alojamento que se encontram na situação de incumprimento do decreto-lei, de que há pouco falei, consciencializando-as para os benefícios que podem colher se obtiverem uma das classificações previstas para o “alojamento turístico”, ao invés de ficarem classificadas nessa “zona nebulosa” e economicamente desvalorizada que será a do “alojamento local”.

 

Em relação ao objectivo de promoção e divulgação iremos proceder a acções de promoção do território nos vários certames, turísticos, que irão decorrer ao longo do ano, estivemos presentes na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, iremos estar na FATACIL, no Algarve, nas feiras transfronteiriças de Badajoz e Valladolid, (a participação, nas restantes, feiras internacionais é feita em colaboração com a Agência Regional de Promoção do Turismo do Alentejo) e na Ovibeja e Feira de S. João, a participação nas duas mais importantes feiras regionais, não tem como objectivo principal a promoção mas sim dar a conhecer a Turismo Terras do Grande Lago, que como sabe tem uma existência ainda muito recente.

Para além da promoção nas feiras que indiquei, estão ainda previstas as participações em acções promocionais em grandes superfícies comerciais no Grande Norte e na região de Lisboa.

 

PALAVRA tem conhecimento que o próximo mês de Maio vai ser de forte aposta Nacional no Alentejo – Capital da Gastronomia e Vinhos. Que eventos serão integrados neste âmbito?

A Gastronomia e Vinhos é um dos 10 Produtos estratégicos, identificados no PENT - Plano Estratégico Nacional para o Turismo, com enorme potencial para o desenvolvimento turístico do território nacional e particularmente para o turismo alentejano (nas 3 Entidades Regionais do Alentejo; Turismo Alentejo; Pólo Turístico de Alqueva e Pólo Turístico do Alentejo Litoral).

Neste enquadramento assume particular importância, que se realize no Alentejo, um evento com a dimensão daquele que irá ocorrer no mês de Maio em Évora, que muito irá contribuir para projectar a gastronomia mediterrânica em geral e a do Alentejo em Portugal.

Neste evento, com carácter internacional, o parceiro institucional do sector turístico para a realização do mesmo será a Turismo Alentejo, que certamente já possuirá mais informação sobre o modelo organizativo e de funcionamento do mesmo.

 

Considera o Projecto da Agenda Turismo Local benéfico para a região? Em que medida?

Nos seus princípios e objectivos o Projecto faz todo o sentido, contudo a sua implementação esbarra claramente num conjunto imenso de obstáculos resultantes da inexistência de um poder político regional, que efectivamente proceda à coordenação dos, actuais, diversos serviços da administração pública desconcentrada, que hoje respondem perante tutelas sediadas em Lisboa. Em resumo o projecto faz todo o sentido quando for possível coordenar, regionalmente, as intervenções dos vários organismos da administração pública e isto só ocorrerá, verdadeiramente, com a implementação da Regionalização, sem que isso aconteça prevejo extremamente difícil a implementação das agendas locais.

 

Depois de um grande número de projectos turísticos de grande dimensão, e de qualidade superior anunciados para os concelhos do regolfo de Alqueva, parece que apenas o Parque Alqueva avança efectivamente. É assim?

Acredita que todos os projectos anunciados serão efectivamente construídos?

Que papel pode desempenhar a TGLA neste domínio?

Não temos qualquer indicação de que seja assim, como está a afirmar, não conhecemos nenhum promotor, com intenção manifestada de investir em Alqueva, que tenha abandonado o projecto, o que sucede é que Portugal e o Mundo atravessam, ainda hoje, uma grande crise financeira que teria que ter reflexos em todas as decisões de grandes investimentos. Esta crise teve o epicentro no sistema financeiro mundial, os grandes projectos, ninguém ignora, incorporam grande volume de capitais alheios, é pois justificado o arrefecimento que se sentiu, por todo o lado e também aqui, no ímpeto do investidor, estou em crer que ultrapassada a crise os projectos previstos para Alqueva retomem o seu caminho, ainda que, aqui e ali, eventualmente alterados em relação à intenção inicial dos promotores.

 

A oferta turística da zona de jurisdição da TGLA está devidamente adequada à procura?

Essa é uma questão que leva a grandes discussões entre os economistas, “como se deve proceder aos ajustamentos entre a procura e a oferta”, estimula-se a procura para que aumente a oferta ou ao invés, aumenta-se a oferta para que haja maior procura.

É certo que independentemente do ângulo da análise a oferta de alojamento nas Terras do Grande Lago é manifestamente insuficiente, quer no número de unidades quer na dimensão das mesmas, bastará recordarmos que o número total de camas anda ao redor das 500 e contam-se pelos dedos de uma mão as unidades com capacidade superior a 40 camas sendo a grande percentagem da oferta de alojamento constituída por pequenas unidades de meia dúzia de camas.

 

Em que domínio se situam as nossas principais lacunas?

Como respondi na pergunta anterior as grandes lacunas situam-se no deficit de unidades de alojamento de média e grande dimensão.

Duma rede de bons restaurantes com horários e dias de funcionamento compatíveis com a oferta própria de qualquer destino turístico.

No horário de abertura dos monumentos, sujeitos a uma lógica de “administração pública”, encerrando às cinco e meia durante a semana e não abrindo ao fim de semana. Esta é uma prática que tem que ser alterada pois é completamente incompatível com o interesse turístico.

Um outro aspecto que apresenta imensas lacunas é o da conservação do nosso património histórico, monumental, arqueológico, etc., este é claramente o tipo de assunto que poderia encontrar resposta no âmbito das agendas locais, mas que, ao invés, exemplifica bem as dificuldades que já referimos na implementação das mesmas.

Na necessidade de desenvolvimento, pelos operadores, de “produtos” atractivos que aproveitem os imensos recursos que o território possui. Repare-se no facto de, apesar de termos o maior lago artificial da Europa, só possuirmos um operador, de dimensão (Amieira Marina/Gescruzeiros), que proporciona actividades náuticas, passeios, parqueamento e alugueres de embarcações, etc., numa área enorme de mais de 1.200 km de margens.

 

Como vê o futuro turístico do Alentejo, nomeadamente a zona do regolfo de Alqueva?

Os Pólos de Desenvolvimento Turístico, nos quais se inclui Alqueva, foram identificados no PENT como as zonas do território nacional que apresentam o maior potencial de crescimento turístico.

A classificação com PIN, pelas autoridades nacionais, de alguns dos projectos de maior dimensão, é um selo de garantia e de confiança na viabilidade económica dos projectos classificados e, simultaneamente, de grande confiança no futuro deste território, como destino turístico de excelência, no contexto nacional e mesmo internacional.

Temos pois todas as condições para considerar que o Turismo de Alqueva tem futuro.